Máfia usou máquinas de construção para esconder 1,2 t de cocaína em SP

Uma investigação envolvendo autoridades policiais e alfandegárias de três continentes identificou que mafiosos italianos eram os donos de quase 1,2 tonelada de cocaína apreendida no Porto de Santos, no litoral de São Paulo, em setembro de 2018. Dez pessoas de três nacionalidades foram presas na África, com apoio da Receita Federal e da Polícia Federal.

A organização criminosa foi desmantelada nas últimas semanas depois que agentes federais encontraram, no cais santista, as centenas de tabletes de cocaína puríssima em rolos compressores que seriam exportados ao porto de Abidjan, na Costa do Marfim. Tratava-se de uma apreensão inédita pela maneira que a droga foi escondida.

As investigações que se iniciaram em seguida ocorreram em parceria com a França, Itália e oito agências policiais do Arco do Golfo. Foi possível identificar uma nova rota do narcotráfico internacional que usava o continente africano como entreposto da droga para despistar a rigorosa fiscalização de mercadorias que seriam enviadas à Europa.

Para isso, os criminosos abriram empresas falsas de construção na Costa do Marfim para justificar a importação de maquinário brasileiro usado. Esses equipamentos serviriam para ocultar a cocaína em grande quantidade. Do país africano, a droga era despachada de maneira fracionada aos italianos, que os recebiam na região da Calábria.

As investigações identificaram seis italianos, três marfinenses e um franco-turco como os responsáveis diretos pelo tráfego na mercadoria. Eles rotineiramente se reuniam em uma cantina italiana em Abidjan para traçar planos. Alguns desses encontros foram monitorados e nomearam a "Operação Spaghetti", deflagrada no último mês.
"Encontramos maquinário em um terreno para onde seriam levados aqueles que apreendemos em Santos. Foi montado um quebra-cabeça com base em análise de dados, fiscal e escutas", explica o chefe da Equipe de Repressão da Alfândega do Porto de Santos, auditor-fiscal Oswaldo Souza Dias Júnior. Ele preparou as equipes na Costa do Marfim.

Segundo Oswaldo, integrantes dessa quadrilha estiveram no Brasil ao menos três vezes. "Aparentemente, eles vieram negociar de maneira falsa a compra de maquinário e todo o esquema da droga. A apreensão que fizemos foi justamente na terceira vez, então é possível que tenham conseguido despachar droga anteriormente", afirma o auditor-fiscal.

O oficial francês Silvain Coué declarou que a droga foi comprada pela máfia italiana. "Temos provas de que as mercadorias foram destinadas para a Ndrangheta e a Camorra e eles [os presos] estavam por trás do tráfego", afirmou, após prisões, buscas e apreensões. Nos endereços dos alvos havia dinheiro, armas e bens de alto valor.

Segundo o auditor-fiscal Oswaldo Júnior, entre os marfinenses presos estão duas mulheres que eram casadas com dois italianos. "Eles montaram empresas de fachada também para a lavagem de dinheiro. Havia a própria construtora, empresa de exportação, além da cantina, que foi utilizada para os encontros que resultavam nos esquemas".
Os investigadores estimam que a cocaína apreendida em Santos foi comprada por 2,5 milhões de euros (R$ 10 milhões) na América do Sul para ser revendida por 250 milhões (R$ 1 bilhão, aproximadamente) na Europa. Há o entendimento que a África tornou-se um entreposto de droga por causa da fiscalização mais branda em relação a outros lugares.

As normativas alfandegárias brasileiras atuais, por exemplo, mantêm a obrigatoriedade de escanear todos os contêineres destinados aos países europeus. "A rota pela África foi uma alternativa encontrada pelos traficantes para tentar driblar essa fiscalização. Não conseguiram, tanto é que houve essa grande mobilização internacional", disse Oswaldo.

O delegado-chefe da Polícia Federal em Santos, Ciro Tadeu Moraes, informou que as investigações sobre o caso seguem para identificar os responsáveis por esconder a droga nos rolos compressores. Ele também disse que a PF apura eventual envolvimento nesse esquema de dois italianos presos em Praia Grande (SP) no início de julho.

Pai e filho, Nicola e Patrick Assisi são suspeitos de integrarem a máfia e eram procurados por envolvimento com tráfico internacional.
No apartamento onde foram presos, policiais acharam uma impressora a laser que grava a numeração e código de barras em lacres de contêineres - no Porto de Santos, é comum a violação ou adulteração dessa peça em ações do narcotráfico.

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